segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

tempestade

ouvi recentemente num filme
que a paixão
é o nutriente da insegurança

já ouvi também por aí
que quem semeia vento
colhe sempre tempestade

fiquei pensando nas origens dos fenômenos intempestivos
e na obviedade de que toda a experiência úmida
faz água

descartei o vento e pensei nos líqudos
que transbordam das paixões do homem
que formam gotas gordas e suculentas pra se beber todos os dias...

pensei então que eu diria num filme
ou mesmo por aí:
a tempestade é nutriente da vida
(e que não se morra por alagamento)

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

casa de amiga

copos, pratos, janela pra uma rua de ruídos esporádicos, cinzeiro cheio, pote de bis, música num radinho que sobrou da casa antiga.

bancos psicodélicos nos remontam, cada terço do corpo encaixa em outro terço, somos laranjas com roxo e verde e algo sempre negro, sempre alí, unindo silenciosamente nossas almas livres, docemente acomodadas nesse novo lar.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

casa da mãe

na sombra dos reluzentes raios de ira, revolta e reclamações
no extremo oposto dos holofotes mirados à frieza
no fundo de todas as agressões
e demonstrações de ingratidão
por trás de cada gesto antipático e petulante

há amor.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

jota

A Jurema hoje estava tão jururu
jogada como jóia esquecida num armário
encarando a janela
enjaulada no quarto
comendo jujubas

resolveu sair pra uma jornada
tomou chuva a Jurema
e jurou
que com a juba cabeleira escorrendo molhada
iria pegar uma jangada
e ir pra Jacutinga!!

lá ela é amiga do rei
do jagunço
do joalheiro
lá tem sol de se queimar
pro seu moreno jambo despertar a paixão
de todo o joão de Jacutinga.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

sozinha no quarto

passos da mãe no corredor
ela espia pela fresta da porta fechada
espera angustiada pela escuridão, pela solidão
mas a luz se demora a apagar...

há uma presença nessa casa que a consome
que a invade!
é somentte quando a luz se apaga
que ela pode se encontrar com seus próprios demônios.

tornar-se mulher é uma viva metamorfose
em que se ziguezagueia
por entre santas e putas
terrores e fantasias.

só há metamorfose
quando se recusa a engolir uma mãe a seco
e cria-se coragem a deixar-se possuir
por imagens de mil outras mulheres.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Deus

Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece.

C.L, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres

domingo, 6 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Aonde andará Dulce Veiga?

Pobre mulher esquecida, Dulce Veiga
Sempre em atividade
Sempre habitada
Dulce podia movimentar tantos
todos que ela quisesse
a depender do quanto doaria de seu espaço

Dulce foi esquecida por conta de uma confusão
Lapso talvez?
Se tratar-se de lapso, haveriam razoões inconscientes pra esquecê-la.
mas isso pouco importa
porque a histõria de Dulce porta um fim trágico

Dulce Veiga gostava de ter dono
ou dona
era masoquista
uma submissa!
e acontece que o dono nem sempre cuida de seus pertences
vai que ela não gostasse muito de ser cuidada...

sem querer a Dulce deixou de ser reconhecida legalmente
perdeu sua identidade
o dono de Dulce não a registrou
Dulce andava fora da lei sem saber, e sem ser sabida.
pobrezinha, uma cidadã da terra de ninguém

Sem registro Dulce era ninguém
Nao podia circular
portar seus amores
podia ser pega e levada ao pátio
av. do estado, n.900

Agora ela está lá
jogada
em estado lamentável
aguarda o amor de dono
aguarda ser novamente possuída, espera-se que inteira!