quarta-feira, 12 de março de 2014

Blasfêmia

Aconteça o que acontecer: mulheres mortas, estupradas, cuspidas, lançadas ao relento.
As feministas não conhecem a liberdade do feminino.
Machismo soa tão clichê quanto "vítima de crime passional". 
Sendo mulher, eu morreria mesmo sem ser morta.
Não de amor por um homem, mas de amor pelo meu desejo.
Desejar-me calada e comportada é estuprar-me de torpor.
Não serei fiel, posto que paixão é chama.
Cospe-me na cara o ódio, faz-me masoquista por opção.
Ser mulher é poder se derramar nas tantas facetas da sujeira

(Blas-fêmea)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

citando mais um poeta do amor

"Estabilizando-se. O frenesi superaquecido se transmudando numa serena afeição física. É assim que prefiro descrever o que está ocorrendo com nosso amor durante esse bem-aventurado verão. Será que posso pensar se forma diferente - posso realmente acreditar que, em vez de pousar num cálido platô de doce aconchego e intimidade, estou escorregando por um íngreme declive, embora por enquanto longe da caverna  fria e solitária onde por fim cairei? Sem dúvida, o leve componente de brutalidade desapareceu de vez; já ficou para trás a mistura de crueldade e ternura, aquelas sugestões de total submissão refletidas nas equimoses arroxeadas, o frêmito de lascívia que vem com a palavra chula sussurrada no auge do tesão. Não sucumbimos mais ao prazer nem nos tocamos em qualquer lugar, as carícias e os apertões feitos com aquela insaciável insensatez tão alheia ao que somos em outros momentos. Na verdade, já não sou tanto o animal nem ela é tanto a vagabunda, nenhum de nós continua a ser o lunático voraz, a criança depravada, o violador de nervos de aço, a vítima indefesa da empalação. Os dentes, antes lâminas e pinças, os dentes dolorosos dos filhotes de gatos e cachorros, são de novo apenas dentes, as línguas são línguas, os membros são membros. O que é, sabemos todos, como deve ser.
Do meu lado, não vou brigar por causa disso, ou ficar amuado, ou sentir saudades, ou cair no desespero. Não vou transformar em religião o que está se esvaindo - meu desejo por aquela tigela em que mergulho o rosto como se quisesse extrair a última gota do sumo que não consigo ingerir com suficiente rapidez…a excitação implacável causada por aquele subir e descer da mão envolvente, tão forte, tão rápido, tão obstinado que, se não digo gemendo que não me sobra mais nada, que estou exaurido e entorpecido, ela, naquele estado de fervor radiante que faz fronteira com a impiedade, não irá parar até haver ordenhado a própria vida de meu corpo seminu. Não, tenciono eliminar qualquer ilusão sobre a possibilidade de um grande renascimento do drama que aparentemente se aproxima do fim, aquele teatro clandestino e sem censura no qual atuaram nossos quatro egos furtivos - os dois que respiram ofegantes durante a ação, os dois que também ofegantes os observam - , onde a preocupação com o que é higiênico e comedido, tanto quanto a noção da hora do dia ou da noite, não passam de intromissões ridículas. Posso dizer que sou um novo homem - isto é, não sou mais um novo homem - e sei quando meu tempo acabou: agora, bastará o simples fato de afagar seus cabelos longos e macios, bastará ficarmos lado a lado na cama todas as manhãs, acordando entrelaçados, acasalados, UNIDOS NO AMOR."

Philip Roth

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

infalíveis entretempos

Entretempos de meninice e o doce peso da vida adulta, que veio como uma chuva sem ameaça,
uma chuva que despenca deliciosa e bruta logo após uma infalível trovoada.
o envelhecimento é uma rajada de vento lançada diretamente sobre seu rosto:
haverão rugas aqui e ali, certamente na testa e ao lado dos olhos…
uns despencamentos ao redor das ancas
entre as coxas
e a barriga?
depois que crescer, será que volta ao seu estado bruto?
seus mamilos rosados e sem proeminências, a doçura da noite toda de sono
a certeza da saudade a invade
e o fervor por alcançar uma imagem distinta no espelho
fisgou-a, a idade
INFALÍVEL
a vontade de saltar para fora do entre.
(o ventre)
Os entretempos
sorrateiam a lógica do passado e do futuro;
ela atormentada por progressões hipotéticas
e nostalgias daquela época
AQUELA
em que tudo ainda ia acontecer
ainda era cedo
agora nem é tarde nem nada, é um tempo entrincheirado
entre o calor e a formação das nuvens negras
quanto tempo até que despenque essa tempestade sem volta?



quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

continuação

e depois dessa passagem
mais um ano que virá
depois d'ultimo que expirou
assim, como quem mal chegou
continuo…

de pé na cozinha lavando louça
temperando a carne enquanto bebo
agonizando no fim da noite
pernas bambas, pedindo arrego
continuo...

é só o tempo que se passa:
na bancada da cozinha
aquela uva passa
da farofa do penultimo ano
continua…

e afinal de contas
o que é a vida senão
uma sucessão de envelhecimentos
intercalando com a brevidade
do inédito!


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

outros sonhos

Teria te amado naquelas épocas de telefone de fio, linha ocupada, carro Monza, férias de janeiro no Guarujá.  Eu e você perdidinhos pela praia.
Teria te amado nos tempos de escola, quando as meninas assustavam, e eu queria um menino pra andar de mãos dadas. Teria sido você? Nós dois de sorrisos tortos, olhando pra baixo, cadarços desamarrados, teria te amado até sem saber.  Estudaríamos juntos, tentando beijos desajeitados por cima dos livros.
Depois, teria te amado no topo daquela pedra no meio do Brasil, eu viajando por entre as matas e desbravando o mundo pela primeira vez. Teria até te amado assim, sem mais nem menos, se estivesse vidrada num gringo qualquer, desses grandes aventureiros da vida que sempre desafiaram meu conservadorismo.
Será que teria te amado quando odiei todos os homens, quando ensaiei lesbianismos, quando ensaiei aquela independência forçada? Embebida de autosuficiência, te teria rejeitado enquanto confundido com meu próprio apelo. E na desconfusão, lembraria-me então dos príncipes encantados de minha infância, das minhas doces brincadeiras de mamãe e filha que, vez ou outra, fingiam um papai que chegava e saía. 
Os homens sempre chegavam e saíam. Eis a experimentação da inconstância masculina, que durou toda uma vida.
Teria te amado sim, porque já te amava sem experiementá-lo. E quando topei, enfim, com a realidade de tua existência, não hesitei. Amei-te. E sua doce constância se instalou, e toda a experiência anterior se transformou de vez: o sonho não é real. Mas a realidade inspira os mais diversos sonhos. Outros sonhos. 

domingo, 22 de dezembro de 2013

prenúncio de chuva de verão

Pois as vezes a vida anda meio torta
e, por dias, nada parece voltar ao centro
minutos duros contados um a um
preenchem horas de angústia

e quando cai uma chuva
a noite, depois daquele frenési
calor desnaturado de dezembro
tudo volta ao seu lugar.