quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

solidão

Recém nascido, ele vage seu pesado desamparo, censurado de sua placenta, insólita separação das entranhas nidificantes da mãe que o faz descobrir uma nova modalidade de vida, em que sua sobrevivência depende desse ar comum a todas as criaturas. Ameaçadora para sua sobrevivência, a solidão não largará mais esse homem, essa mulher, separados pela primeira vez depois de 9 meses de convivência afinada com a mãe, que é arrebatada por esse grito de solidão primeira, por esse grito de necessidade dela, esse grito de vida que, para ela, é a primeira linguagem de seu lactente.
Lactente sedento, sonolento, ele nasce necessitado, impotente para sobreviver sem a turgidez de um seio, sem o calor da voz tranquilizadora, sem a provisão das mãos atenciosas, dos braços socorredores. Por muito tempo, por muito, muito tempo, sua vida depende dos cuidados desses primeiros eleitos que o reconheceram como seu, o pai e a mãe, que haurem em seus sorrisos coragem para trabalhar, gosto para criar; sem estes, seu corpo só sente secura árida e seu coração, solidão. É a ausência deles que lhe arranca o choro, apelos que talvez façam reaparecer aquele pai, aquela mãe, e com eles, a segurança.
Mitigadas as necessidades da comoção de amor ligada à memória visual e auditiva dos pais - imagem primeira, alucinada de quem alivia a impotência solitária - a memória da presença tutelar paterna e materna fica como primeiro modelo de não estar só.

Françoise Dolto

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